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Livro resgata espírito desestabilizador do Teatro da Vertigem

Causou um rebuliço inesperado a estreia de “O Paraíso Perdido” dentro da igreja Santa Ifigênia, no centro paulistano. Naqueles idos de 1992, grupos religiosos protestavam contra a apresentação do espetáculo ali no templo.

Os artistas, que na peça aludiam ao Gênesis bíblico e criticavam a sociedade contemporânea, até receberam cartas, ameaças de morte. Logo o assunto tomou conta do noticiário e foi debatido nas mais distintas esferas, da filósofa Marilena Chaui ao programa de calouros de Silvio Santos.

Apesar do prosaísmo de algumas discussões, a polêmica acabou por delinear a estética do Teatro da Vertigem. A partir de então, o grupo seguiu com a criação de peças site specific, pensadas para ocupar espaços alternativos.

“Isso trouxe para a gente a percepção de quanto o teatro pode interferir na vida da cidade, como ele funciona como ágora”, afirma o diretor Antonio Araújo, um dos fundadores da companhia. “Isso tira uma certa anestesia da gente.”

Foi nessa ideia de desequilíbrio e instabilidade que nasceu o nome do grupo. Veio de uma passagem —”Monólogo da Vertigem”— do poema “Paraíso Perdido”, de John Milton, que inspirou a primeira montagem da companhia.

Esse panorama é revisto em “Teatro da Vertigem”, que o grupo acaba de lançar. Organizado pela crítica Sílvia Fernandes, o livro celebra os 25 anos da companhia e reúne textos de artistas e teóricos, imagens de arquivo e uma entrevista com integrantes do coletivo.

Está ali, por exemplo, os primórdios do Vertigem, surgido no início dos anos 1990, com seus integrantes saídos do ambiente acadêmico da USP.

Pensavam, de início, não na criação de uma companhia, mas num grupo de estudos que pesquisasse o corpo e o movimento a partir da mecânica clássica e da física de Newton e Galileu —tinham até apoio de uma física teórica.

O acaso que foi dando forma ao coletivo também guiou seu modo de produção, que os artistas denominam “dinâmicas coletivas de criação”.

A ideia é que todos participem da concepção, de atores à equipe técnica. Algo que lembra os processos coletivos de produções nos anos 1960 e 1970, porém no caso do Vertigem as funções não são diluídas. Estão lá as presenças de diretor e dramaturgo, mas texto e encenação são embebidos das ideias dos demais.

“O processo todo é muito partilhado, discutido, mas a gente não tinha muita consciência disso quando começamos”, diz Araújo. “Estávamos no retorno da democracia brasileira, acho que esse espírito contaminou nossa criação.”

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